Yeah, I'm Ready to Rock!!!
Postado em 26/05/08 na categoria Música, por LaivindilNa frente do espelho ela prende com força as últimas das inúmeras presilhas no cabelo. Maquiagem pesada em torno dos olhos, meias coloridas cobrindo-lhe as pernas, microssaia quadriculada revelando sua recém-adquirida maturidade hormonal.
Em outro extremo da cidade, ele cuida de amarrar os cadarços de suas botas pretas de cano longo. Joga pra trás os cabelos brilhosos, disclicentemente arrumados na frente, e minuciosamente bagunçados atrás. A despeito de ser um homem, de cursar faculdade de História e trabalhar como operador de telemarketing, ele abusa de acessórios, maquiagem, tiras de couro para todos os lados. Sua sexualidade pouco importa nesse dia. Ele faz isso com outras finalidades.
Chegando apressados na rodoviária, o grupo de amigos não poderia ser mais distinto: a jovem loira veste um avental branco, e uma touca. O rapaz alto e muito magro, não dispensou seu jeans surrado, allstars em pior estado, e camisa preta, com um “X” vermelho em alto-relevo. A garota que vem em seguida é gordinha, de faces rosadas e delicadas. Ruiva, tem metade dos cabelos tingidos de roxo, piercings adornam-lhe pontos específicos do rosto, e um cigarro é equilibrado com precisão entre os dedos de uma das mãos.
Muitos rostos, muitas histórias, muitos propósitos. Todos se fundem em uma massa uniforme e ruidosa de jovens em fila indiana, sob o ameno sol do dia 24 de maio de 2008, ao longo do Centro Cultural Bunkyo, no coração do maior bairro japonês do mundo, a Liberdade, em São Paulo.
Andando apressado para se achar o fim da fila, você dá a volta no quarteirão. Crianças, adolescentes, adultos. Altos, baixos, gordos, magros, coloridos ao extremo, abusando da cor negra, cabelos espetados, raspados, azuis, vermelhos, brancos. Pessoas, diversas em muitas maneiras, mas com características iguais. E um propósito em comum: o histórico show que está para acontecer.
Muita espera, muito dinheiro gasto, boatos fugazes sobre a primeira apresentação realizada no dia anterior, a tensão paira no ar. Risadas histéricas, gritos agudos, correria, fotos, tudo serve para aliviar um pouco o peso do acontecimento. Para aqueles jovens, a noite precisa, tem que ser perfeita.
Os olhares curiosos dos transeuntes não intimidam, servindo apenas de combustível para mais poses, mais flashes, de todas as direções. Quase seis horas, a fila finalmente anda. Um pouco de cada vez, a primeira esquina é vencida, ao longe já se pode vislumbrar a entrada. Homens cabeludos correm de um lado a outro tentando manter a situação sob controle.
Finalmente, após vencer tantos obstáculos, estamos dentro.
Escadas, corredores, gritos. Dobre a esquerda no painel de avisos, desça à direita no extintor de incêncio, siga os sons, não se perca. Entre no auditório, deixe a mágica fluir.
Mais de mil lugares, auditório lotado, organizadores dando os últimos recados. A luz se apaga. Lanternas piscam nas mãos dos espectadores, gritos ecoam pelas paredes, estampidos eletrônicos prenunciam o que está por vir.
Miyavi surge como uma fotografia em 3-D. Está igual ao que vemos na tela do computador, em fotos promocionais, e em cópias online de seus videoclipes. Sua guitarra reverbera pelas espinhas dos que não conseguem manter os pés fixos em um só ponto. Sua entrada é triunfal, e seus Kabuki Boys conseguem chamar ainda maior atenção, em momentos determinados.
“Dormiram bem esta noite?”, ele pergunta, em certa altura do espetáculo, num português, diga-se de passagem, bem melhor que seu inglês. “Sim”, as pessoas próximas gritam, “E você?”, perguntando em seguida. “Nada”, responde Miyavi, faceiro, provocando ataques histéricos de seus fans. A qualquer gesto seu, ao menor sinal de um trejeito feminino, ou galanteador, todos reagem de imediato. Ele tem seu público na mão. Ele já ganhou a noite.
Apesar do efeito magnético de seu carisma, as primeiras músicas não chegam a empolgar tanto. Canções mais recentes talvez, o público não tão familiarizado com elas, não arrancam tanto retorno. Mas a habilidade de Miyavi com seus instrumentos de trabalho triunfam sobre qualquer adversidade. A segunda metade traz surpresas. Somos apresentados aos demais Kabuki Boys, brindados com um show de música eletrônica comandado pelo Dj da trupe, que precede o retorno de Miyavi, para canções agora mais conhecidas entre os jovens.
O que sentia-se falta então aconteceu. O coro da platéia acompanhou perfeitamente cada palavra, cada melodia, cada acorde maluco e desencontrado, que funcionava magistralmente no conjunto da equação. Ao final, o truque batido, utilizado por onze entre dez cantores: Miyavi se despede de forma rápida e brusca, as luzes se acendem, e todos clamam por seu nome. Efeitos sonoros, suspense, protestos indignados. E ele ressurge para o palco, com uma camisa da seleção brasileira. Faz um discurso politicamente correto, agradecendo o apoio de todos, e encerra com “Are you ready to Rock” a tão esperada canção da noite.
Miyavi no palco significou liberdade. Não a mesma considerada pelos colonizadores japoneses, ao denominarem o bairro, mas a liberdade de barreiras sociais que tolhem aqueles jovens que lotaram o Centro Bunkyo. Alguns por medo de enfrentar a vida como ela é, outros por um anarquismo contido e inato, todos com aquele fogo interno consumindo-os por dentro. Seja isso, vista-se assim, fale desta forma. Vivemos em uma sociedade organizada, pelo funcionamento do todo, devemos fazer concessões.
Muitas, porém, não são tão agradáveis, e um artista como esse representa o sonho contido de todo ser humano: ele pode ser o que quiser, vestir-se como quiser, cantar e falar o que lhe der na veneta. Ele conquistou esse patamar, e inconscientemente inspira todos aqueles que estavam lá, a seus pés, gritando e pulando sem ao menos entenderem totalmente a razão.
Alguns sentiram falta de “Señor, señora, señorita”, ou “Girls, be Ambitious”, além de outros hits mais conhecidos e aclamados. Mas todos saíram satisfeitos com o que viram.
Os cabelos já não estão tão arrumados, as tiras soltam a cada passo, a maquiagem escorre pelos olhos. Cada um estava ali por uma razão, e cada um absorveu de sua maneira. Mas a única certeza é que o J-rock no Brasil cresce cada vez mais, e esse evento só comprova a afirmação.




me arrepiei lendo isso, eu estava lá e foi exatamente isso que aconteceu,eu me emocionei tanto com esse show, não somente a apresentação mas a fila também , dava pra perceber como a musica e estilo de vida pode influenciar as pessoas de um jeito tão legal.
ainda sinto um frio na barriga ouvindo boom-hah-boom-hah-hah , Sakihokoru Hana no You Ni, Shouri no V rock e What a wonderful world ?
Uaaaau! Que demais! o___ob Você escreve tão absurdamente bem! *0*o
Eu não fui nos shows, nem ao menos ouço Miyavi, mas eu adorei o texto *^*o As sensações, emoções…! Esse mês mesmo eu fui a um outro show e, nossa… Tudo se encaixa tão perfeitamente…! Mesmo não sendo do Miyavi, lendo esse texto parecia que [i]você[/i] estava falando desse live que eu fui! XD/
E é tão legal ver o J-Rock crescendo no Brasil *___*b
só por curiosidade… quem eram a garota e o garoto do início do texto?
E o J-cast in video: Special edition – Miyavi in Brasil?
Gostei do modo como descreveu o fato até então intercalado pelo silencio que ecoava por estes J-Casters!
Nossa! também não fui ao show por não ouvir Miyavi, mas o texto está de emocionar! tá tãaaaaaaaaaaaoooooooooooooo liiiiiiiiidoooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
*e que venha Area-51 em agosto ^^ *
Ah, gente, deixa eu apresentar para vocês. Esse é o Laivindil!
Tá!?
Dispenso comentários quanto ao texto, pelo simples motivo de serem inócuos frente ao domínio textual do qual abusou lindamente aí!
Feliz por você ter ido ao show!
Feliz por esse presente! ISSO é um texto!
do caralho
a otsu fuma???
que nojooooooo
a otsu fuma???
que nojooooooo(2)
KKK
CARACA, um senhor texto sobre o show hein xD
Misturou crítica, com crônica, com tudo o___o
Queria ter ido no show. Mas espero que, depois do Myavi, venham mais bandas pra cá.
eu espero que venham pra cá e que façam um turnê descente por pelo menos as 7 cidade principais….
Parabéns pelo texto tão cativante e bem redigido. Por sorte também estive no show neste dia e ao ler seu artigo me fez reviver cada detalhe dele. ;3
Abraços.
Ryu
Realmente, tu deveria mandar cronicas para os jornais dai live… Os grandes autores da língua portuguesa nasceram assim…Talvez não escrevendo sobre shows, muito menos sobre shows de cantores(as) japa.
Eu faço minhas as palavras aí em cima: vc escreve MUITO, Laivindil *____________*~
Vc dominou as palavras pra passar a emoção, não o contrário; perfeito.
E perfeito tbm foi o show (pelo que eu li aqui, afinal, eu não fui T_T).