Mamoru Oshii X Toshio Suzuki

Postado em 15/07/09 na categoria Anime, Cinema, por

Hoje trago algo um pouco diferente para o JCast. Uns 3 dias atrás, o kransom, do blog welcome datacomp, transliterou e traduziu para o inglês uma conversa entre Mamoru Oshii, diretor de clássicos como Ghost in the Shell, e Toshio Suzuki, produtor e presidente dos estúdios Ghibli.

Segundo kransom, há um ano ele estava na universidade Kyoto Seika, em uma palestra do mangaká Takekuma Kentaro, quando o palestrante mencionou um programa de rádio com Mamoru Oshii e Toshio Suzuki. Um ano depois, kransom descobriu que o programa em questão era o Suzuki Toshio no Ghibli Asemamire, e que várias mp3s estavam disponíveis no site oficial. Rapidamente, ele resolveu fazer uma tradução não-oficial do programa de agosto de 2008, onde os dois artistas discutem várias coisas, como suas obras mais recentes, Ponyo e The Sky Crawlers, o futuro da animação no Japão e até mesmo Indiana Jones.

Imediatamente, ao ler a tradução, resolvi compartilhar essa discussão tão interessante com o público do JCast. Mandei um email para o kransom, e ele me deu autorização para traduzir sua tradução. Aconselho que vocês leiam ouvindo o áudio original (outros áudios do programa podem ser encontrados aqui), pra ficar menos cansativo e vocês pegarem melhor a emoção da conversa. Pra quem quiser, a tradução em inglês está aqui. O post vai ser bem longo, mas tenham paciência e leiam, pois é muito interessante ver dois grandes artistas da indústria do anime debatendo suas obras e outras questões tão distantes do nosso mundo ocidental, e ao mesmo tempo tão presente em nossas vidas.

Obs.: Sempre que houver um T.N.: dentro de parênteses, é uma nota ou explicação feita por mim.

Suzuki: Já assistiu [o novo] Indiana Jones?
Oshii: Não.
S: Você devia assistir. Basicamente, é o Harrison Ford de hoje em dia como Indiana Jones, e seu filho já crescido que ele teve com uma de suas historinhas amorosas do passado, certo? Então, eu tava pensando, por que todo mundo tem feito filmes sobre pais e filhos? Olha, Miya-san (T.N.: Sim, Hayao Miyazaki) tem feito, você tem feito…Se eu quisesse ser crítico, olharia para vocês três e diria que o que é interessante em seus filmes é que eles se passam no céu, ou no oceano…em territórios inexplorados.
O: Isso mesmo.
S: Então, o que está aqui e agora não te interessa. Eu achei isso interessante, você não acha?
O: É o padrão, sofisma característico de Suzuki Toshio de mais alta escala.
(Todos riem)
O: Me explique exatamente o que você achou interessante, ok?
S: Eu só estava pensando. Foi só uma idéia.
O: Uma idéia? Não é óbvio que alguém que está envelhecendo fará histórias sobre pais e filhos?
S: Sim, exatamente! Miya-san tem 67 anos, certo? E Spielberg uns 62, 63?
O: Uns 63.
S: Certo? E Oshii-san, você tem 58?
O: 57!
(risos)
Equipe: Olha, isso o tira do sério! (risos)
S: Então, todos vocês estão trabalhando com o mesmo tema, certo? Os detalhes entre um filme e outro são diferentes, óbvio. Mas mesmo assim, isso me surpreende. O que eu estava pensando é que, não importa se suas histórias são no céu, no mar, ou em terras desconhecidas, são todas a mesma coisa. São todas sobre a vida após a morte.
O: Bem, isso é inevitável.
S: Hein?
O: Se você tem mais de 50 anos e faz filmes que não mexem com a vida após a morte de alguma forma, tem algo de errado com você.
S: Sim, sim, sim. (Impressionado)
O: Eu assisti Ponyo outro dia e me toquei de uma coisa. Eu percebi, “Oh, Suzuki Toshio não teve nada a ver com esse filme”, e tive certeza disso.
Equipe: Nada a ver? (riso contido)
O: Foi um filme 100% do Miya-san.
S: É, realmente foi um filme do Miya-san.

O: Foi um filme totalmente feito pelo Miya-san.
S: Sim, isso mesmo.
O: Você não colocou um dedo nele. Aposto até que, talvez, você não teve permissão pra isso. Por isso não é um filme completo. O que eu quero dizer é que todos os filmes do Miya-san até agora, o único motivo deles serem filmes de verdade é porque Toshio Suzuki estava lá, ou porque Takahata Isao estava lá.
S: Hum.
O: Não havia ninguém supervisionando Ponyo pra juntar aquilo tudo como um filme dessa vez.
S: Ah (impressionado)
O: É um vôo arriscado. Eu iria além, e diria que o filme é uma explosão de desejos, certo? É um filme de revigoração, não é?

S: Ponyo foi ruim?
O: Hein? Em que sentido?
S: O filme foi ruim?
O: Não, ele foi interessante de assistir. O que eu quero dizer é que a parte selvagem de Miya-san são interessantes. O problema é que não era um filme de verdade. Não foi montado como um filme de verdade, nem um pouco.
S: Você não precisa repetir isso tantas vezes (risos).
O: Mas é a verdade! (risos)
S: Por que você continua repetindo! (risos)
O: Porque é a verdade! (risos)
S: Não dá pra falar de uma forma mais doce? (risos)

O: O filme não explica nada sobre Fujimoto.
Equipe: (riso contido) É verdade…
O: Nada mesmo.
S: Fujimoto… Ele parece muito com você, Oshii-san.
O: Como assim?

S: Você está se sentindo bem, não está, Oshii-san?
O: Hum?
S: Você está com energia.
O: Estou. Me sinto cheio de energia, fisicamente e mentalmente.
S: The Sky Crawlers foi um filme interessante.
(Todos riem)

O: Eu vim aqui por uma única razão. Queria perguntar porque você abandonou Ponyo!
Equipe: Então esse é o tema de hoje (risos)
O: Você enjoou dele?
S: Não, não não não.
O: O que foi então?
S: O problema é o estado mental de Miya-san.
O: Miya-san não está ouvindo o que as pessoas dizem, está?
S: Olha, o estado mental de Miya-san… Ele carregava essa maldição chamada Takahata Isao (T.N.: Outro diretor do Ghibli), certo? Ele trabalhou com o cara por 15 anos. Mas mesmo depois disso, Isao ainda o perseguia, como um fantasma.
O: Sim, e-
S: Mas um dos temas mais recorrentes nos filmes do Miya-san é sobre como ele consegue se livrar disso, certo?
O: É, o que eu percebo é que, pelo menos um pouco, ele reconhece que seus filmes precisam da lógica de Suzuki Toshio, ou a motivação de Takahata Isao. Pelo menos até certo ponto, provavelmente.
S: Sim.
O: Mesmo ele não querendo admitir. No fim, é algo que ele precisava. Então o que ele tentou fazer foi eliminar essas coisas, fazer um filme, e ver no que dá. É isso que estou dizendo, eu reconheço que ele é um maestral criador de ilusões. O mais incrível criador de ilusões do Japão – não, do mundo. Isso é óbvio.
S: Essa foi a idéia.
O: Humm.
S: Então, basicamente, o que ele quis fazer foi juntar tudo que ele pensou, e fazer um filme com isso. Entende o que quero dizer?
O: Mas sabe, não dá pra fazer um filme assim. Cada ilusão criada é absurdamente interessante. Estão todas transbordando expressividade. Os primeiros dez minutos são impecáveis. Sabe a cena que ela emerge, montada em uma água-viva? Eu achei aquela cena muito boa. Como eu falei, cada cena, individualmente, é sublime
S: É como você disse: queríamos animar nossas ilusões pessoais.
O: Uhum. Por que a mãe voltou para a casa?
S: Hein?
O: Aquela mãe, que motivos ela tinha pra voltar para a casa?
S: Voltar para a casa?
O: É, depois que ela volta pra casa, ela volta mais uma vez para o Jardim dos Girassóis.
S: Ahh…
O: Então o que eu quero dizer é: por que ela não ficou o tempo todo no Jardim dos Girassóis?
S: Bem, é porque-
O: Que motivos ela tinha pra voltar pra casa?
S: Bem, a gente queria que ela interagisse com Ponyo e Sousuke.
(Todos riem)
O: O que eu tô tentando perguntar é que razões ela tinha dentro do mundo do filme para voltar (risos)
S: Como eu estou dizendo-
O: Uma cena sem motivação alguma não devia cativar o público. Mas, mesmo assim, as pessoas se envolvem com a cena, e é por causa do magnânimo poder expressivo que o filme tem.
S: E é esse o tipo de obra que queríamos fazer.
O: Hein?
S: Um filme assim.
O: Bem, seus filmes possuindo temas pertencem a um passado distante.
S: Você está certo em dizer que queríamos fazer um filme sem nenhuma estrutura real.
O: Não é que vocês estão tentando fazer filmes sem senso de estrutura–
S: Eu admito, foi isso que fizemos. O que isso tudo significa é que quem cada estrutura para nossos filmes era Takahata-san.
O: Sim.
S: Isso siginifica que, enquanto nossos filmes tiverem alguma forma de estrutura, Miya-san nunca conseguirá se desvincular de Takahata-san.
O: E isso é o estranho aqui.É isso.
S: Eu não tenho certeza se isso é algo estranho ou não (risos)
O: Apesar de que ele mesmo poderia ter dado uma estrutura ao filme.
S: Sim, Foi isso que me surpreendeu. Normalmente, nos filmes de Miya-san, existe um personagem principal, que nós seguimos e descobrimos todas essas coisas diferentes com ele. Ele traz o público para seu mundo. É como um filme de mistério. Mas agora, nós acompanhamos vários personagens diferentes, certo? Quando você começa a achar que a história é sobre Ponyo, ela muda para Sousuke. E quando você começa a acreditar que é sobre Sousuke, Fujimoto aparece. Um monte de gente aparece no longa, mas não é o tipo de filme que você é imerso no cenário ao aprender sobre ele junto aos personagens.
Equipe: Sim.
S: Normalmente, em um filme como esse, você começa explicando as coisas para o espectador, como o que está acontecendo, e sobre o lugar onde as coisas acontecem. Depois disso, você vai para cada personagem em separado, e eles cumprem seus papéis. É o padrão, certo?
O: Sim.
S: Então, Ponyo não segue esse caminho.
Equipe: (risos)
S: Oshii-san, seu filme também destoa de seus outros trabalhos.
O: Em que sentido? Eu tentei fazer algo diferente de meus filmes antigos, intencionalmente.
S: Dessa vez não tem muito diálogo, né?
Equipe: Isso mesmo, não tem tantos diálogos.
O: Foi intencional.
S: Não tem muito. Me pergunto o que mudou em sua mente pra que isso acontecesse.
O: Bem, eu queria mostrar algo diferente pras pessoas com esse filme.
Staff: É, Oshii-san, dessa vez você fez um romance, e o romance–isso pode ter vindo do roteiro original, mas–os personagens principais são crianças que não envelhecem. Então, após te ver fazendo um filme de romance sobre crianças, eu fiquei pensando…
O: Você sabe, não importa a que ponto a animação chegue, será sempre um meio de símbolos, com certeza.
S: Sim. Mas, de certa forma, não pare com uma peça bunraku (T.N.: Teatro de fantoches japonês)?
Equipe: Bem, as expressões dos personagens não me pareceram particularmente expressivas.
S: Personagens como esses, se movimentam da forma como se movimentam-deixando de lado a natureza artística disso-dá pra perceber que  alguém dirige suas ações e move seus corpos. É uma peça de bunraku.
Equipe: (Impressionado)
O: O que define bunraku é que, dependendo do ângulo em que o personagem é visto, as expressões mudam. É o mesmo que o noh ou outras formas de arte tradicionais, é uma parte da tradição artística japonesa.
S: Sim, e o filme é extremamente japonês, é o ponto que quero chegar.
O: Expressão através da forma, e apenas da forma, é parte do Japão- bem, do senso estético japonês. Um tipo de expressão privilegiado. Expressão transmitida não por movimento, ou performance, mas expressão pela forma. (T.N.: essa sentença define muito bem a expressão artística japonesa, que o ocidente não consegue captar, principalmente em um material mais pop como o anime)
Equipe: Mas, bem… essa é uma opinião pessoal, mas a não-existência de uma abertura para o filme, mostrando apenas um grupo de pessoas lendo jornais, bebendo cerveja, fumando…me deixou a impressão que o que você estava tentando explicar o mundo e os personagens para a juventude através de uma extensão de seus próprios sentimentos pessoais, de seu próprio mundo.
S: Também percebo isso.
O: E é verdade.
S: Isso foi algo que me interessou. Cada personagem, bem, eles falam, certo? De forma inexpressiva. Então há um corte, e sua mão os move. Eles tocam o cabelo, ou se viram um pouco. Todo o tempo acontece algo assim. Me pergunto o que aconteceria se você eliminasse essas partes (risos).
O: Se você tirar essas partes, o filme ficaria vazio.
Equipe: Ah.
O: Eu tentei criar uma expressão do tempo em que os jovens vivem hoje em dia.

S: Oshii Mamoru fazendo uma história de amor. Você está apaixonado?
Equpe: (risos)
O: Sim, eu já estive! (riso contido)
S: Não, não, digo recentemente. (risos)
O: Ei, me deixa em paz! (risos)
Equipe: (gargalhadas)
S: Amor em uma idade avançada? Foi o que me pareceu.
O: É, amor na terceira idade é-
S: Bem, não é só a frase assim, sozinha, mas-
O: Amor na terceira idade permite uma exposição da ess~encia do amor. Quanto mais velho você é, sabe-
S: Não, eu achei interessante. Sério.
O: Quanto mais velhos você é, mas inclinado para o sei (kanji para sexo) você fica. Tanto a parte “vida” (o kanji para sexo é composto de dois outros, e o lado direito significa “vida”), quanto a parte “coração” (o lado esquerdo, significando coração/mente). Esse é o significado.
Equipe: Hmmm…(refletindo)
O: Normalmente nós, velhos, não possuimos nenhuma arte pela qual podemos expressar isso, e é por isso que muita gente paga colegiais para ter sexo. Sendo franco, você começa a se interessar mais por mulheres.
S: Sim, sim, sim, sim.
O: Então, é isso.
S: Ah… (Impressionado)
O: É como o que Ootsuka-san (T.N.: Yasuo Ootsuka, animador dos estúdios Ghibli) falou um tempo atrás, lembra? Quando a gente tava bebendo com Ootsuka-san e Miya-san, Miya-san foi ao banheiro e Ootsuka-san disse “É, assim que Miya-san passar dos 60, algo incrível pode acontecer. Seria o máximo se ele começasse a ficar maluco por mulheres!” (T.N.: Sobre essa parte da terceira idade e do sexo, é muito interessante ver a forma dos japoneses tratarem certos assuntos, livres dos nossos milenares costumes ocidentais).
Equipe: (Gargalhada)
O: Ele disse como se quisesse que isso acontecesse. Ficou claro.
S: Hmm…
O: De todos aqui, Ootsuka-san seria o mais desinteressado, o mais indiferente perante esse tipo de coisa.
S: Ahh…
O: Mas ele é bem realista. Eu pensei na mesma coisa. Mas Miya-san não tem culhões para esse tipo de coisa.
Equipe: (risos)
O: E sua esposa me dá medo (risos), muito medo. Mas ele nunca faria algo assim na verdade, então ele junta todos esses sentimentos e pensamentos que fariam dele um Don Juan e coloca no mundo da animação. Isso- tenho certeza que tudo isso foi para as plantas, e as águas-vivas, e a vida marinha.
S: Sim, sim, sim, sim. Pareceu ser essas coisas, mas era tudo sobre a velhice! (risos)
O: Isso mesmo. Tudo aquilo, seja a água-viva, o peixe, ou as garotas de 5 anos, é tudo o mundo de um velho. O que eu quero dizer é que, por todo o filme, você só vê crianças e velhos. Tem o pai e a mãe, mas além deles…pra onde foram os outros adultos?
S: O bom e velho Mamoru Oshii. O interessante em você, Oshii-san, é que uma pessoa lógica e teórica como você ainda se interessa por ate. É porque você se interessa por arte. Sendo completamente honesto com você, no início o que mais me surpreendeu nas cenas de ação foi aquela cena do carro. Um personagem lambe seu sorvete, e então o carro aparece do nada, certo? Então ele canta pneu. O que mais me surpreendeu foi como não houve intensidade alguma nisso.
Equipe: (risos)
S: Realmente me surpreendeu. Eu pensei “Hein? Ok, e agora!?”, me senti dessa mesma forma quanto à história. Tem toda a gritaria, Lisa! Lisa! Lisa!, e várias coisas acontecem, e aí você pensa “Ok, e agora…”, e então, do anda, tudo se resolve, certo? Tem vários momentos assim no filme.  É o vôo ousado, certo? A história se constrói e bam, bam, bam, bam.
O: Eu me senti dessa mesma forma na cena da água-viva. Aquelas águas-vivas eram muito boas.
S: Sim, elas eram.
O: Aquilo me chocou.
S: Tanaka Nacchan quem fez. (T.N.: Naoya Tanaka, diretor de arte e artista de cenário do Ghibli)
O: Quando eu vi as águas-vivas-
S: São muito boas mesmo.
O: Viu, isso–
S: Aquela cena teve mais ou menos uns 1600 frames. 1600.
O: Eu vi a água-viva, e o peixe nadando em volta, e a irmãzinha do Ponyo nadando também, e pensei, “Ah, então é esse o mundo em que ele está agora.”
Equipe: Por exemplo, Oshii-san, você estava fazendo Innocence, que se passava em um mundo de bonecas, mas agora você migrou para um mundo de humanos. É mais ou menos assim?
S: Bem, você sabe, é porque ele tá ficando velho.
Equipe: (risos) Eu não-
S: Humanos e bonecas, ou humanos e cachorros, daí por diante…Você tinha a obrigação de fazer isso, certo? Acabou virando sua marca registrada. E pender para uma marca assim é algo que os jovens costumam fazer.
Equipe: Ahh… (Impressionado)
S: É isso que significa. Mas agora, a partir do momento que ele passou a trabalhar apenas com humanos, e como quando Mamoru Oshii…como dizer? O momemnto em que ele pisou no seu fumi-e (T.N.: uma mesa com imagens cristãs, onde os suspeitos de cristianismo da era Edo eram forçados a pisar, para provar sua incredulidade.)
Equipe: Seu fumi-e…?
S: Isso. É parte da velhice. Se você me permite, está conectado ao que eu disse inicialmente sobre Indiana Jones. Eu vi os três filmes, e sempre voltei para o mesmo lugar, pensando a mesma coisa. Que tipo de filmes os jovens de hoje em dia fazem? Mas, sendo franco, além do que eu disse sobre Ponyo e Sky Crawlers, eu também achei Indiana Jones interessante. Todas essas coisas incríveis estavam lá no filme, e essas pessoas que se proclamam cinéfilos, ou fãs do Indiana Jones, estavam todas reclamando. Mas se você olhar a progressão do que Spielberg fez em toda a sua vida, é realmente fascinante.
Equipe: Nossa.
S: Sim. E a coisa mais incrível sobre Indiana Jones é que não é filosofia, nem religião. Quando vi, pensei “Então é nessa que ele está agora!”.
O: Eu não irei discutir com isso, não mesmo. Meu envelhecer está sim, de certa forma, relacionado com virar e encara tudo diretamente em meus filmes.
S: Mas Miya-san ainda não percebeu isso ainda, né? Não percebeu. Quando assisti Ponyo, não importa o que estava na tela, o jeito como ele desenha as coisas é o mesmo. Ele é tão persistente que chega a ser incrível, não?
O: Sabe, eu acho que o anúncio de que ele faria tudo a mão é como o que Miya-san me disse na última vez que nos encontramos, uns 2 anos atrás, “de agora em diante, nós voltaremos a trabalhar com artistas. Todo mundo que trabalha com computadores será demitido!”
S: Ele nunca disse isso (risos). Até mesmo Miya-san sabe que, não impota se feito a mão ou no computador, o que é bom é bom.

Equipe: Oshii-san, dessa vez, em Sky Crawlers, as cenas aéreas foram feitas em CG, com as cenas no chão em 2d. E bem, eu percebi que foi intencional, mas me perguntei por que você decidiu seguir esse caminho?
O: Bem, pra começar, devemos ser realistas: era o único jeito disso ser feito. Quwr dizer, não existem muitos animadores por aí que nos permitiriam fazer tudo desenha a mão.
S: Sim…
O: Não existem animadores por aí destemidos o suficiente para animar aqueles caças, ou até mesmo mover aquelas nuvens.
S: Eles desapareceram?
O: Eles não estão mais por aí.
S: Mm…
O: Quem desenharia aqueles caças? Ninguém desenharia.
S: Mesmo depois de tudo…
O: Foi nossa única escolha. Quer dizer, é a nossa única escolha, então integramos isso ao modo como o filme foi concebido. Por isso que os mundos acima e abaixo das nuvens são bem distintos entre si.
S: Hmm…
O: Foi tudo que pudemos fazer.
S: Eu entendo.
O: Por isso que, quando a cena está acima das nuvens, os personagens usam óculos e máscaras que cobrem seus rostos. O que eu quero dizer-tentamos cobrir os traços de animação 2d o máximo possível, e não mostrar as expressões faciais, e-
S: Você não mostra os rostos, mas ainda é possível sentir as emoções.
O: E isso é porque essas linhas foram traçadas a mão.
S: Agora sim, isso é interessante.
O: Quando desenhamos os personagens, é isso que coloca alma nesses caças em 3d. Nosso cara responsável pelo 3d Hayashi-kun, viu e ficou emocionado. Ele disse “a partir do momento que algo foi desenhado, de alguma forma a cena passou a ter sentimento.”
S: Hm…
O: Então nos forçamos a fazer dessa forma. Mas não sei se alguém ainda vai querer fazer algo assim de novo. Se você parar pra pensar em quanto trabalho existe nesse processo, ninguém toparia fazer algo assim.
S: Ah… (impressionado)
O: Sabe, eu acho-não, eu sei que se um jornal fosse escrever sobre Miya-san voltando ao básico, retornando ao mundo da animação feita a mão, seria um artigo escrito como um conto comovente, maravilhoso. Mas isso está errado. O mundo da animação japonesa feita a mão já se tornou inútil faz tempo, em termos de conquistas e talento. O que vai ao ar hoje em dia na televisão pode ser feito mecanicamente , produzido em massa.
S: Mas se você tentar fazer algo de qualidade, e tentar a mão, seria inútil. Pelo menos com um filme, talvez fosse possível com um curta de 10 ou 20 minutos. Não há a possibilidade de Miya-san não ter percebido isso ainda. Mas ele me disse, “mesmo assim, iremos fazer dessa forma”. Miya-san e Ghibli podem ter quase não conseguido fazer algo como Ponyo, mas mesmo assim, a cena da água-viva? Se fosse feita em CG, ela seria uma água-viva linda, que poderia até mesmo ser confundida com uma de verdade, uma quantidade enorme delas inclusive, mas não teria o mesmo sentimento da cena feita a mão. Não há dúvidas quanto a isso. Com certeja, há um certo mérito nos arte-
S: Oshii-san, você já se referiu à animação como artesanato no passado, não é mesmo?
Equipe: Ah, um artesanato. Como se fosse parte da tradição das artes japonesas.
O: Eu realmente penso em animação como uma forma de artesanato. Se você me perguntar, é parecido com o milagre de um carpinteiro de templos. Você faz idéia de quantas pessoas são descartadas até que uma só seja eleita um carpinteiro de templos qualificado? Quanto treino é necessário? É por isso que comparo animação com a carpintaria de templos: você não pode produzí-los em massa. Mas agora, estamos chegando ao nosso limite. Se você quer saber porquê, o motivo é que todos os animadores talentosos que ainda sustentam o mundo da animação feita a mão, os mais ou menos 20 existentes, já passaram dos 40 anos.
S: Sim, já têm até 50.
O: Devem estar perto dos 50, é verdade. Fim dos 40. Pelo menos dos 40 eles já passaram. Então pense um pouco, em 10 anos, o que irá acontecer?
S: E existe alguém para tomar seus lugares? Não, não existe.
O: O bom dos carpinteiros de templos é que eles são um grupo de trabalhadores intinerários
Equipe: Com certeza…
O: Constroem uma pagoda de 5 andares aqui, um salão principal ali, são intinerários
S: IG (T.N.: O estúdio, Production I.G., onde Mamoru Oshii trabalha) não estava tentando estimular essa forma de trabalho?
O: Estávamos, mas não apareceu ninguém.
S: Não sei se vai dar certo, mas é por isso que queremos lançar um desafio no Ghibli de novo. Recrutar sangue novo. Porque sabe, olhando pro passado, quando Oshii-san ou eu tinhamos, sei lá, uns 20 anos – foi nessa época que começou o chamado anime boom, e, se você analisar essa époda, tinha um monte de gente por aí, batendo de porta em porta nos estúdios. Várias pessoa entrando na indústria todo o tempo. Isso fez com que vários tipos diferentes de pessoas se envolvessem com esse mercado. Pensando dessa forma, nós estamos conectados à vários tipos de indústrias. Vários.
O: A diferença, porém, é que naquela época ninguém precisava recrutar pessoas como nós, nós mesmos aparecíamos nos estúdios. Isso parece óbvio, mas se você parar pra pensar no porqueê disso, é que nós não tinhamos mais pra onde ir. Pelo menos comigo foi assim. Eu não tinha nenhuma outra opção, eu realmente queria criar algo como um filme, e trabalhar com filmes, e depois de pesquisar algumas alternativas, acabei trabalhando em um estúdio de anime. Surpreendentemente, se você realmente quer fazer algo, é possível transformar qualquer coisa em realidade.
Equipe: Hmmm.
O: O que estou tentando dizer é que…hum, bem, não importa quantas pessoas talentosas você ache, será possível voltar para aquela era? Quer dizer, essas pessoas se achavam e se juntavam naturalmente. Atualmente, eu não acho que algo vá acontecer até que as pessoas não só percebam a situação em que a indústria está, e como a qualidade das animações tem decaído, mas também se levantam pra fazer algo. Não é possível recriar artificialmente as coisas como eram naquela época.
S: É como a História costuma funcionar
O: Sim. Na verdade, analisando a situação atual, até mesmo em um nível pessoal, se você quiser fazer um filme é preciso considerar todos os métodos disponíveis, sejam eles quias forem. Se não dá pra fazer animação manual, então o jeito é fazer em CG. Se eu não tivesse começado como um pintor, ou um desenhista, eu seria apenas um simples cineasta, por isso uso de todos os artifícios.

  • Igor says:

    Darko vlw mesmo, eu nem imaginaria essa entevista se não visse aqui…
    Uma entrevista que tenha Toshio Suzuki o diretor do estudio Ghibli, é uma coisa extremamente rara, pelo que sei ele não costuma dar muitas entrevistas, e ainda mais com Oshii Mamoru, isso e aquele tipo de coisa que não se vê todo dia.

    Depois dessa entrevista fiquei com mais vontade ainda de assistir Ponyo. XD

    Realmente animação feita a mão é uma coisa rara hoje em dia, diversos estúdios deveriam fazer como Ghibli, incentivar a animação feita a mão, mas com salarios tão baixos o dos animadores, duvido muito que eles se interessem por isso, quando o salario dos animadores for um salario decente, talvez em um dia BEM futuramente possamos vêr novas pessoas trabalhando com animação a mão.

  • Yohan says:

    Parabéns cara!!! fazia tempo que não lia algo interessante assim!! A gente vê essa crise dos animadores e tudo mais, mas é só um relance do que acontece… realmente o problema é mais fundo… muito bom mesmo!

  • gilgamesh says:

    Obrigado, ótima leitura e extremamente interessante por mostrar o ponto de vista criativo de pessoas que criam arte antes de criar animes.

  • GameT says:

    wow! Essa conversa foi grande, eu só li 1/5 ainda, mas vo continuar

  • Rarcanus says:

    Muito boa esta postagem!!!

    Para os fãs de animação de qualidade, como os classicos do “Miya-san” e do Ghibli, esta entrevista foi ótima.
    Nos mostra o passado, o presente e do provável futuro(????) da animação japonesa!!!
    Vi o trailer de Ponyo e fiquei com vontade de assistir, pois Ghibli vale a pena assistir.
    CG é muito legal, mas a arte clássico(como eles disseram) é oq da a emoção para o contesto.
    Vamos torcer para que os futuros animadores se animem em fazer animação no Japão.Pq Disney nunca vai chegar aos pés da animação japonesa!!!

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