Mangá online dentro da lei

Postado em 06/07/10 na categoria Blog, Mangá, por

Todo mundo que escuta o JCast já tá sabendo, e todo mundo que lê mangás pela internet já percebeu: a coisa tá complicada. Há algumas semanas foi aberta a temporada de caça aos scanlations, promovida por mais de 30 empresas americanas e japonesas. Que isso talvez não resulte em nada, já que a maioria do pessoal que lê mangá por scan ou não tem acesso ao material oficial, ou não vai comprar de qualquer jeito, todo mundo já sabe; que nós, e todos os outros países que não possuem um leque tão amplo de títulos na banca sofreremos mais com isso, também. Então, pra não chover no molhado, resolvi fazer uma pequena listagem. Eles querem nos tirar os scans, mas o que nos oferecem em troca? Basicamente, o mesmo que nos é oferecido há mais de 60 anos: quadrinhos em papel.

Porém, mesmo que de forma bem tímida, algumas editoras aos poucos vão colocando um ou outro material na internet. Pra quem não sabe, os EUA ensaiam o formato japonês de antologias com versões yankees das revistas nipônicas, e algumas delas estão tentando, aos poucos, entrar no mercado online. A Shonen Jump americana disponibiliza alguns dos capítulos da última edição lançada, além das 2 edições anteriores pra quem é assinante da revista, o que não faz lá muito sentido, se você for parar pra pensar. O leitor online é péssimo, sem zoom e bastante incômodo, servindo muito mais como um preview do que como material de leitura.

A Shonen Sunday americana acerta um pouco mais, trazendo todos os capítulos que ainda não foram lançados em tankohon. O problema é que pouquíssimas séries seguem esse modus operandi, a maioria apenas disponibilizando o primeiro capítulo e mais nada. O leitor é quase o ideal, mas eu, por exemplo, gosto dos meus mangás com zoom de 100%, e o site não mantêm essa configuração. Ou seja: a cada página tenho que aumentar o zoom, o que é cansativo demais. Aliás, é interessante frisar que tanto a Sunday quanto a Jump saem nos EUA pela Viz, o que me leva a crer que, pra mesma editora seguir estratégias tão diferentes nas duas linhas, os japoneses são muitas vezes responsáveis por esse atraso do mercado em migrar para o meio digital.

Mas a iniciativa americana mais interessante se chama Signature Ikki. A idéia é a de uma antologia que não existe em papel, apenas na internet. Seu material é disponibilizado de graça no site, e fica lá até o lançamento do tankohon. Saindo o volume, os capítulos referentes a ele são removidos, ficando apenas o primeiro de cada. Ainda não é lá essas coisas, e mais uma vez te dá o produto físico como única alternativa de posse, mas só da internet ser essencial no processo de publicação já é um avanço. Também existem antologias japonesas exclusivamente onlines, como a Gangan Online, da Square Enix, mas elas só disponibilizam os 2 ou 3 capítulos mais recentes e os primeiros da série, o tankohon continua sendo o produto principal.

Muitos podem pensar que no Japão é diferente, mas não é bem assim. Praticamente todas as editoras japonesas, em seus catálogos online, disponibilizam o primeiro capítulo de cada tankohon para leitura online, mas não vai muito além disso.

A Shonen Jump japonesa tem uma abordagem bem estranha pra distribuição online, que já foi comentada aqui pelo JCast, provavelmente em áudio: você baixa um programa e baixa o mangá em um formato feito especialmente pra rodar nesse programa. Você lê o mangá, e quando fecha o programa…o arquivo desaparece! Agora me diz, pra que esse circo todo? Por que não só fazer um leitor online e ponto?

A Shonen Sunday japonesa segue a linha da americana, disponibilizando os capítulos que ainda não viraram tankohon – a diferença é que ela faz isso com todos os títulos, não só com alguns.  Além disso, um app para compra de mangás digitais da linha Sunday acaba de ser lançado para IPhone e IPad. Por enquanto só estão disponíveis títulos mais antigos e consagrados, como Urusei Yatsura e Major, saindo dois novos volumes toda semana por 450 yen cada, algo em torno de R$8,50, meio salgadinho pra um produto digital.

Por fim, temos um caso de revolta por parte de um mangaká: Shuho Sato, autor do mangá médico Black Jack ni Youkuso (referência direta ao clássico Black Jack, o desregrado doutor do Osamu Tezuka). Sato estava cheio da vida árdua de um mangaká e da pressão das editoras e resolveu tomar uma atitude, disponibilizando toda sua obra para venda online, em formato digital, por um ótimo preço. Sato comentou, na época, que um autor iniciante chega a ter prejuízo com todo o material que precisa comprar e, como as editoras pagam muito pouco no início, um mangaká só consegue se bancar depois de uns bons anos de carreira. Sua iniciativa deu certo, e em 6 semanas vendendo seu trabalho online de forma independente ele faturou 500 mil yen, algo em torno de 10 mil reais.

Vendo o sucesso da empreitada, Sato resolveu dar um passo adiante, e lançou o MangaOnWeb.com. Na forma de uma loja online, ele abriu espaço pra qualquer mangaká, iniciante ou não, possa vender sua obra de forma independente na internet. É possível visualizar um pequeno preview de todas as obras, e os capítulos custam uma média de 10 a 30 yen, algo entre 30 e 70 centavos de real. Você faz a sua conta e o site trabalha com um sistema de créditos, que você compra quando quiser e usa para adquirir seus mangá de forma 100% digital. O catálogo de artistas que participam do projeto ainda não é muito grande, e por enquanto é quase que majoritariamente formado por mangakás iniciantes, mas tem bastante coisa de qualidade na lista.

Infelizmente as editoras ainda vêem o meio online apenas como uma forma de prévia para a mídia física,  o principal e único foco, mas são iniciativas como o MangaOnWeb (e o OpenManga, sobre o qual falarei em breve) que prometem finalmente levar a indústria para o próximo passo. Enquanto isso, continuamos esperando a revolução definitiva, que ainda deve demorar mais alguns anos pra acontecer.

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