Knurd Report #54 – Abril de 2019


KNURD REPORT #54A – 04/04/2019

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00:09:35 The OA
00:30:24 Twilight Zone
00:47:30 Anarquismo e o que fazer

Featuring music: Los Hermanos – Corre Corre e Pink Floyd – Lucifer Sam


KNURD REPORT #54b – 11/04/2019

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00:06:26 Us

Featuring music: Joyce Moreno – Maricotinha e Joyce Moreno – Fiz uma Viagem


KNURD REPORT #54C – 18/04/2019

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00:03:00 Shazam!
00:38:45 DC Extended Universe

Featuring music: Joyce Moreno – Canoeiro e Cristina Buarque – O Morro do

Sossego


KNURD REPORT #54D – 25/04/2019

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00:01:45 Desabafo do Laivindil
00:23:10 The Chilling Adventures of Sabrina – Season 2

Featuring music: Blaya – Faz Gostoso e Ariana Grande – 7 Rings

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A situação era tão surreal que talvez pudesse estar sonhando. Ultra lúcido sonho, mas ainda assim era uma possibilidade. Tinha aquele filme rotoscopiado que vira certa vez, e com ele aprendera sobre a impossibilidade de focar em pequenas coisas quando se está sonhando, como ler mensagens, por exemplo, ou apagar e acender as luzes. A teoria do sonho fora refutada, porém, pois estava nesse momento checando seu celular atrás de mensagens novas no Whatsapp; Nunca se utilizara muito das redes sociais para nada além de trabalho, e não havia novas mensagens de Valéria; Tudo bem que sua vista entrava e saía de foco levemente enquanto deslizava o touchscreen atrás do número da amiga, mas isso não prova definitiva de que estava na verdade alucinando enquanto dormia naquele finíssimo tapete tigrado brega comprado com o dinheiro de um candelabro muito mais bonito que Valéria decidira não ser irônico o bastante para a decoração do apê e que por isso deveria ser vendido ao invés de mantido.

Gabriela pressionou o contato de Valéria e logo o telefone começou a chamar; O estranho era que Gabriela podia ouvir o toque do celular da amiga ali mesmo no cômodo, talvez por estar tão familiarizada com aquela música que costumava ser boa quando a ouvira ser cantada pela Beyonce meses atrás, porém agora se tornara irritante devido ao número de ligações que Valéria recebia o tempo todo. Admiradores ou clientes, todos ganhavam a mesma música, pois Valéria dividia com Gabriela a preguiça com configurações de equipamentos eletrônicos. E então o telefone chamava mais vezes e caía na caixa postal, e Gabriela repetia a ligação, o corpo todo trêmulo, a pressão baixando, as palmas das mãos suadas atrapalhando o manusear do telefone, as pernas doídas devido a posição pouco cômoda em que se abaixara e que só não trocava por não ter se dado conta da dor, tão estressada estava por não conseguir completar a ligação e não parar de ouvir o toque irritante do telefo…

Ela encarava lívida o iPhone 5 de tela rachada clichê que Valéria possuía por achar charmoso e kitsch, depositado em cima da cômoda logo a sua frente. Sentia-se absurdamente estúpida por não ter percebido antes que o toque que pensava ouvir em suas memórias acontecia literalmente naquele mesmo cômodo. Rindo por dentro, bufando por fora e, ao se levantar e perceber a lancinante dor em seus joelhos e panturrilha, sibilando intempéries aos deuses, ela foi até o telefone, e cada passo trazia mais lucidez, e com mais lucidez vinham prioridades mais urgentes tais como o paradeiro de Valéria e uma explicação para ter abandonado ali seu precioso telefone.

Foi então que Gabriela estendeu a mão para pegar o telefone e seus dedos se fecharam no ar. Seu punho estava cerrado segurando absolutamente nada e por meio segundo Gabriela sentiu-se ligeiramente confusa, perguntando-se porque o telefone não aparentava estar em sua mão, já que claramente ele estava naquela cômoda. Foi então que esse meio segundo passou e sua ligeira confusão fora promovida; pois o telefone não estava mais em cima do móvel e não se via nem mesmo o pouco de poeira que provavelmente se acumularia embaixo dele. Era como se houvesse desaparecido no ar, já que Gabriela lembrava com clareza de Valéria colocando o aparelho ali em cima na noite anterior e dizendo que ali ele ficaria, pois não queria se distrair com eletrônicos durante essa celebração. Aparentemente era um grande desperdício gastar alguma onda alucinógena na timeline do Facebook.

“Eu estou mesmo alucinando”, realizava Gabriela, tanto a música da Beyonce como o telefone em si, e então cambaleou ligeiramente para trás, sentindo um zumbido nos ouvidos, como microfonia, e se dando conta de que talvez ainda restassem no sangue traços da droga que lhe roubara os sentidos. Era mais do que lógico que o efeito de algo tão obscuro tivesse repercussões ainda mais inesperadas em seu organismo, então a confusão de Gabriela tornou-se apenas vergonha e medo de que ocorresse algo pior do que alucinações envolvendo um smartphone quebrado.

Ainda manuseando com dificuldade seu telefone, ela mais uma vez discou o numero de Valéria, e dessa vez o toque não se fez ouvir no ambiente e Gabriela respirou aliviada por não ter que mais uma vez encarar o medo de não possuir plenamente o controle do próprio corpo. Talvez fosse melhor assim que possível lavar suas entranhas com algum suco detox que misturasse ingredientes tão bizarros e indigestos que os resquícios da droga fugiriam ofendidos com tamanho mal gosto, e começou a lembrar das diversas receitas que arquivara em uma pasta no Pinterest quando o baque surdo de um objeto caindo e trincando no piso de madeira a tirou do transe; num pulo ela se virou pra trás, um dos braços instintivamente estendidos com a palma da mão pra frente a guisa de escudo, o celular firme na mão atrás de si, como que pra proteger do fantasma assaltante; era um Xiaomi 9 e ainda estava sendo pago.

Refletindo na lente rachada da câmera traseira um fio de luz solar que adentrava pela janela, o iPhone 5 brega de Valéria reaparecera estatelado no chão, pequenos cacos em volta sugerindo um novo estrago, como se tivesse caído de uma considerável altura. Era como se tivesse se materializado e ido diretamente de encontro ao chão, sem nem uma pequena pausa no ar como nos desenhos animados. A ideia de tomar o suco e desinfetar suas veias de qualquer resquício de droga mais uma vez se manifestou em sua mente, já que não havia explicação racional para o que acontecia. O telefone não teria movido sozinho de um lugar para o outro; ela teria levado o celular e o derrubado no chão, ou estaria tendo visões aleatórias? Assombrada, andando na ponta dos pés, ela se aproximou do aparelho, se inclinou e estendeu a mão, que mais uma vez se fechou no ar.

Café com Gundam #34

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Episódio 34 – 宿命の出会い – Um Encontro Fatídico

A Base Branca permanece em manutenção na Ala 6. Enquanto isso, os poderes psíquicos de Amuro se desenvolvem e o levam a um excêntrico encontro com Lalah Sune.

Café com Gundam é o seu cereal matinal feito de titânio de Luna, o blend perfeito da brisa da manhã e o cheiro de pólvora nos campos de batalha do Ano de Guerra. Toda semana, Darko assiste um episódio enquanto toma um chazinho e comenta suas impressões enquanto novato na franquia que revolucionou a ficção científica no Japão. Voe, Gundam!

Café com Gundam #33

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Episódio 33 – コンスコン強襲 – O Ataque de Conscon

Dozle Zabi se impacienta com as sucessivas tentativas frustradas em derrotar a Base Branca e envia o Comandante Conscon para realizar o trabalho. Enquanto isso, a tripulação da nave tenta consertar os danos sofridos no último combate, mas acaba encontrando mais fantasmas do que gostaria na pacífica Ala 6.

Café com Gundam é o seu cereal matinal feito de titânio de Luna, o blend perfeito da brisa da manhã e o cheiro de pólvora nos campos de batalha do Ano de Guerra. Toda semana, Darko assiste um episódio enquanto toma um chazinho e comenta suas impressões enquanto novato na franquia que revolucionou a ficção científica no Japão. Voe, Gundam!

Café com Gundam #32

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Episódio 32 – 強行突破作戦 – Operação de Avanço

Sayla se encontra dividida sobre o que fazer com seu irmão e toda a tripulação está preocupado com a sua indisposição. Enquanto isso, Dren prepara um ataque em larga escala à Base Branca.

Café com Gundam é o seu cereal matinal feito de titânio de Luna, o blend perfeito da brisa da manhã e o cheiro de pólvora nos campos de batalha do Ano de Guerra. Toda semana, Darko assiste um episódio enquanto toma um chazinho e comenta suas impressões enquanto novato na franquia que revolucionou a ficção científica no Japão. Voe, Gundam!

JCast #210 – Oscar 2019

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Nesse episódio:
00:00:36 Shoplifters
01:08:12 Mirai no Mirai
02:12:16 Oscar 2019

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“A gente aproveita que não tem ninguém conhecido” era a frase que ficava voltando à mente de Gabriela durante a festa, toda vez que Valéria parava a caminhada das duas para cumprimentar alguém que ela conhecia. E com esses encontros vinham os escândalos, os abraços, os flertes, as mãos bobas… Gabriela tentava não se importar e ficar chapada; ela tentava se entregar para a difusa onda provocada pelas diferentes substâncias que corriam em suas veias, mas algo no ar a incomodava tanto que ela não conseguia desligar seus sentidos, que estavam em estado de alerta máximo; quanto mais ela tentava subjugar e amortecer sua mente, mais ela rugia raivosa, paranoica, barulhenta e conspiratória. Ela queria se sentir grata por não estar sozinha… Ela sabia que precisava de Valéria a seu lado em ocasiões como essa, ainda que algumas vezes desejasse que a amiga sumisse no ar. Ela ressentia a necessidade que tinha pela amiga. Ainda mais quando abandonavam novamente as pessoas encontradas assim que a conversa se tornava mais democrática e menos focada em Valéria; ela tinha uma personalidade magnética e não sabia lidar com uma situação em que não fosse o centro das atenções.

Gabriela sabia que, provendo sua melhor amiga com o que ela precisava, poderia ter a garantia de manter para sempre a reciprocidade de seus sentimentos. E o que Valéria mais precisava era de uma pessoa que estivesse perfeitamente encaixada na rara conjunção entre o interessante e o neutro; alguém que ela pudesse arrastar em suas aventuras malucas e uma companhia que lhe conferisse coragem para seguir em frente, pois a vida sem isso seria tediosa demais. Nenhuma das duas queria estar sozinha, mas Gabriela sabia que a balança nem sempre pendia de forma justa para ambos os lados. Uma parte de si tinha consciência da insalubridade de uma situação em que você permite que alguém pense que está decidindo os rumos de sua vida enquanto você não percebe. Gabriela entendia, no entanto, que a felicidade é rara e não muito garantida, e que se deve agarrar a ela não importa o preço a ser pago.

E então havia Nero. Nero era chato, ele ficava falando de energia. Como a energia de Gabriela sempre estava muito pesada, e misturava no assunto qualquer que fosse a porcaria holística que aprendera naquela semana. Qual fora a curiosidade mística que ele contara naquela noite, assim que avistou Valéria, sua paixão platônica e antiga amiga, e não tardou em ir até ela com seus braços abertos, nus, tatuados e flácidos e com aquela típica estrutura muscular de um quarentão que deixara de malhar havia uns anos? E ele tomava a atenção para si de um jeito que ofuscava a própria Valéria, mas com ele era diferente porque ela não se importava. Com Nero ela fazia aquela cara de genuíno interesse que ninguém mais tinha a honra de receber. Ela nunca prestava muita atenção ao que Gabriela dizia… Não de verdade… Ela apenas esperava com muita diligência seu turno de falar. Ah, sim, Nero naquela noite falara algo sobre um ritual que fazia um anjo aparecer para você no meio da noite e te falar seu nome angelical ou algo assim.

– E meu nome é Melflyn. Significa “O que Ainda não se Cumpriu”. Tem tudo a ver com a minha busca, sabe, com essa vontade constante que eu tenho de aperfeiçoamento.

– Nossa, exatamente! – Valéria interrompia pela milésima vez, um nível acima de empolgação a cada novo “Nossa, exatamente!” que ela guinchava. E então em determinado momento o assunto voltara-se para Gabriela. E Nero tinha essa ideia maluca… E essa ideia parecia haver sido compartilhada previamente entre ele e Valéria, pois trocaram um levíssimo olhar cúmplice antes de Nero voltar seu cavanhaque branco pedante para Gabriela e começar a sugerir formas alternativas de se divertir, desafiar as normas, acessar umas conexões especiais entre a sua mente e alma que só abrem se receberem o nível de adrenalina advindo de um quebrar verdadeiro de regras.

– Eu não vou roubar os meus trabalhos, seus idiotas! – Gabriela gritou antes de ter sua boca nervosamente fechada pela palma suada da mão de Valéria, que arregalava os olhos para Nero, sorridente com aquele chapéu de palha brega e o cabelo branco comprido preso num laço vermelho. Ele era literalmente um vilão de desenho animado, um dândi decadente que hipnotizara Valéria. Ela realmente acreditava que algum progresso espiritual poderia vir através do crime, já que algumas energias se encontravam fora da jurisdição do nosso código moral vigente; mas Gabriela sabia que a amiga só precisava agradar a certos instintos. E Gabriela queria agradar Valéria. A amiga que tanto fazia por ela.

E foi um cordão de ouro bem fininho. A primeira coisa. Ah, Gabriela sentia novamente a quentura descendo pela espinha quando colocou o objeto no bolso, os tremeliques, a vergonha, o medo, o ridículo de se estar tão nervosa por algo tecnicamente tão pequeno… essas sensações aconteceriam muitas vezes ao longo dos meses, com intensidades diferentes e seriam muito questionadas nas ocasiões em que analisavam suas consciências sob a luz de velas e taças de vinho. Em todas as vezes em que falaram sobre como roubar a casa dos riquinhos já não lhes desafiava tanto assim a moral, ao ponto de ter começado a ficar chato. Elas sempre chegavam à conclusão de que valera a pena pelo menos até então, mais pelos benefícios espirituais do que os financeiros. Durante todos aqueles meses Nero ganhara grande parte do crédito (e do dinheiro) por cada uma de suas pequenas missões, ainda que só estivesse presente em algumas poucas cuja ambição e escopo as fizesse requerer ajuda extra.

– Vocês vão sentir o que eu tô falando assim que vocês pegarem alguma coisinha. Experimenta. – era o que Nero dissera na fatídica balada, e Valéria fincara as unhas nas palmas das mãos de Gabriela, tão excitada estava. E agora, no presente, era desse começo o final celebrado. A decisão de pular fora. Pois a presença de Nero se tornava cada vez mais constante, já que suas sugestões (demandas) aumentavam exponencialmente a cada novo roubo. Mas agora Nero não seria mais um problema. Aquela amizade irritante não iria mais acontecer. Ele exigia muito, as colocava em risco e se comportava a cada dia mais como um patrão. Valéria jamais quisera ser parte de um negócio. E até mesmo Nero, com toda a sua influência, não pôde deixar de entediar Valéria; e Gabriela exultava de felicidade, pois finalmente provara a si mesma que era a única constante na vida de Valéria e vice-versa. As duas estariam unidas no topo de uma colina observando o horizonte queimar na chegada do apocalipse.

E por isso Gabriela engolira a pílula de shampoo. Para comemorar a independência, dentro de seu apartamento abarrotado de utensílios e artefatos subtraídos da vida de alguém, ou comprados com o dinheiro que sua venda havia rendido. E ela viajava entre toda a linha do tempo de sua vida, misturando as lembranças boas com as negativas e em dúvida se aquilo tudo teria um propósito. E então ela sentiu um vazio no estômago, um vácuo que sugava toda a sua essência para dentro de si mesma e a regurgitava imediatamente. E ela tentava localizar Valéria no meio daquela névoa sombria e alienígena e não conseguia. E ela nunca se sentiu tão sozinha.

E de repente ela estava mesmo sozinha. Tudo muito silencioso. Alguns veículos passando na rua, apenas, mas… veículos? A essa hora da madrug… isso é a luz do sol? Gabriela teve uma leve vertigem, como a que se tem quando se está prestes a dormir e se acorda bruscamente; e ao final desse momentâneo desequilíbrio ela percebeu que ainda estava em sua casa, mas o sol raiava, suas roupas eram diferentes e apropriadas àquele horário, e seu cabelo estava preso, e ela calçava tênis, provavelmente acabara de chegar da rua… e ela simplesmente não se lembrava de ter alcançado aquele ponto. Aterrorizada, olhou em volta procurando Valéria, mas a amiga não estava mais lá. O colchonete onde ela deveria ter dormido estava arrumado, as colchas dobradas. Bem, ela teria arrumado a cama antes de partir… Que horas eram afinal? Gabriela se sentia uma completa idiota quando finalmente checou a data e a hora em seu celular. E, apesar de se sentir aterrorizada e confusa, também sentia subir pela espinha inconfessáveis níveis de excitamento e curiosidade mórbida quando percebeu que perdera mais de doze horas de memória e precisava telefonar urgentemente para Valéria.